sexta-feira, julho 23, 2010

José

José Pereira de Lima.
José era um homem com seu cigarro de palha, sem terno de vidro nem lavra de ouro. Um homem de chinelo de dedos azul surrado. Cabelo despenteado e farto. Sorriso torto. Eu via bondade naquele homem. Muita bondade. Posso estar errado, mas eu via. Ele era a alegria da criançada. Distribuía beliscões e tapas por onde passava, mas estava sempre rodeado delas. Zeca, o chamavam. Como um moleque. Um moleque com seus cinqüenta e tantos anos.
Zeca, o Bukowski brasileiro. O homem que fumava muito. Quando jovem bebia muito. Forte como um touro. Vagabundo. Um tanto amargo. Outro tanto cínico. Ria-se da idiotice burguesa, sem nem ao menos saber o que era um burguês. Havia estudado até a terceira série. Torrou a herança da sua mãe comprando uma carreta. Tomou um porre do caralho e na primeira viagem rebentou o caminhão numa vaca no meio da estrada. A vaca morreu mugindo, o caminhão se espatifou e José seguiu andando pela vida um ano antes de voltar pra casa, com um saco de pão debaixo dos braços, beijar sua mulher, e ir dormir.
A sua maneira, viveu e conquistou aquilo que somente um homem realmente bom pode conquistar. Amigos. Família. Eu mataria e morreria por ele. Minha mãe idem. Assim como minha irmã e meu pai. Assim como um punhado de gente mais. Primos, vizinhos, irmãos. Zeca conseguiu ter o carinho e o amor de muita gente sorrindo, provocando, brincando, abraçando, fugindo do trabalho, chorando, caminhando, suando e fedendo com todas elas em volta.
Dia vinte e dois de julho, meu pai me ligou as onze e tantas da noite. Meu avô, José e seu cigarro de palha haviam falecido. Eu chorei do lado de cá. Ele chorou do lado de lá. Eu no Rio Grande do Sul, ele em São Paulo, meu avô no Paraná. No dia seguinte minha irmã me liga, perguntando quando eu vou poder ir vê-los. Ela chora. Assusta-se quando fico mudo. Pensa ter acabado os poucos créditos do cartão de orelhão. Ela não terá grana para comprar outro.
Estamos longe um do outro. Eu da minha irmã, dos meus pais, de minha filha. Nós todos de meu avô, agora ainda mais. Queria muito o abraço deles. Queria o abraço de alguém que ama esse velho safado que foi meu avô.
Por sorte tenho a mulher que tenho. E ela tem a família que tem. E eu gostaria que eles tivessem na memória a lembrança desse homem que foi meu avô. O homem que tanto me ensinou sobre tudo.

Um comentário:

Marco Rodriguéz disse...

Que fique em sua lembrança, os bons momentos que teve com José.
Força meu caro!
fique bem!